domingo, 15 de agosto de 2021

Esperança

 Seg - 13.05.2002


É essa religiosidade cabocla ingênua,

Que o sertanejo traz dentro de si,

Que o faz ser vela acesa,

No meio à tempestade;


É esse choro, sem lamento,

Que o homem do campo mistura

Junto à poeira da terra,

Mais um ano de seca,

Depois de Luzia ter ido,

Barra não ter se vindo,

E José não ter chovido.


E findo o período chuvoso,

Nenhuma gota ter caído,

É que o faz sonhar que o ano vindouro

Haverá um bom inverno.


E quando Luzia se vem,

A barra se tornar real,

José choveu de muitão,

Fartura a terra brotou


O seu feijão, sem valor,

Que o atravessador comprou,

Ou às vezes trocou,

Não tira sua têmpera de homem valente.


Pois o inverno que se firmou,

Deixou-o todo contente.

E ao fantasma da fome,

O sertanejo que, acima de tudo, é um forte,

Agora sorrir diferente,

Agradecendo ao Deus Pai, todo poderoso,

À Santa vilgem Maria,

E a São José,

Por lhe terem dado boa colheita.


Pois agora pode comprar suas chitas,

Um par de chinelo novo,

Um pneu para sua bicicleta,

Pilhas para o seu rádio.


Feliz volta para sua casa de taipa,

Com barro novo colocado,

Na esperança que sempre haverá inverno,

E com ele a certeza

Que sempre terá o que comer e que vestir,

Dando-se por isso satisfeito,

Com as divinas Graças de Deus.


É essa simplicidade rurícola,

Que faz chamar você de Ocê,

Outro dia de Assurdia,

Qualquer pessoa de senhor,

Dando bom dia por onde quer que passe,

É o que está faltando para o mundo

Civilizado de animais irracionais,

Cujo único compromisso é com os poderosos,

Esquecendo que o amanhã será outro dia,

É que faz do sertanejo o migrante da seca

Sem política governamental:

Alimentando sua triste partida.

Nenhum comentário:

Postar um comentário