Seg - 13.05.2002
É essa religiosidade cabocla ingênua,
Que o sertanejo traz dentro de si,
Que o faz ser vela acesa,
No meio à tempestade;
É esse choro, sem lamento,
Que o homem do campo mistura
Junto à poeira da terra,
Mais um ano de seca,
Depois de Luzia ter ido,
Barra não ter se vindo,
E José não ter chovido.
E findo o período chuvoso,
Nenhuma gota ter caído,
É que o faz sonhar que o ano vindouro
Haverá um bom inverno.
E quando Luzia se vem,
A barra se tornar real,
José choveu de muitão,
Fartura a terra brotou
O seu feijão, sem valor,
Que o atravessador comprou,
Ou às vezes trocou,
Não tira sua têmpera de homem valente.
Pois o inverno que se firmou,
Deixou-o todo contente.
E ao fantasma da fome,
O sertanejo que, acima de tudo, é um forte,
Agora sorrir diferente,
Agradecendo ao Deus Pai, todo poderoso,
À Santa vilgem Maria,
E a São José,
Por lhe terem dado boa colheita.
Pois agora pode comprar suas chitas,
Um par de chinelo novo,
Um pneu para sua bicicleta,
Pilhas para o seu rádio.
Feliz volta para sua casa de taipa,
Com barro novo colocado,
Na esperança que sempre haverá inverno,
E com ele a certeza
Que sempre terá o que comer e que vestir,
Dando-se por isso satisfeito,
Com as divinas Graças de Deus.
É essa simplicidade rurícola,
Que faz chamar você de Ocê,
Outro dia de Assurdia,
Qualquer pessoa de senhor,
Dando bom dia por onde quer que passe,
É o que está faltando para o mundo
Civilizado de animais irracionais,
Cujo único compromisso é com os poderosos,
Esquecendo que o amanhã será outro dia,
É que faz do sertanejo o migrante da seca
Sem política governamental:
Alimentando sua triste partida.